Painel revela consenso entre indústria e universidade: o Brasil precisa atualizar a formação em engenharia para enfrentar desafios de descarbonização, digitalização e impacto socioambiental.
A discussão sobre o futuro das carreiras em energia ganhou um novo contorno durante a Energy Week, realizada pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO/Unicamp): o desafio do país vai além do apagão de engenheiros — falta também um tipo de engenheiro que ainda não existe nos modelos tradicionais de formação. Especialistas da Unicamp, Petrobras, TotalEnergies e FAPESP foram unânimes em apontar que a transição energética exige competências inéditas, que combinam domínios digitais, visão socioeconômica ampla e atuação interdisciplinar.
A abertura do painel Formação & Futuro: Profissionais para o Setor Energético, que ocorreu no dia 5 de dezembro, foi feita pelo diretor do CEPETRO, professor Marcelo Souza de Castro, que ressaltou que a formação de novos engenheiros e cientistas é hoje um eixo estratégico para a competitividade energética do país. Ele anunciou a realização, em março de 2026, do Fórum de Educação, Pesquisa e Empreendedorismo (FEPE) — iniciativa que reunirá na Petrobras universidades, empresas, ANP, MCTI e outras instituições para estabelecer diretrizes de fortalecimento das carreiras STEM. “Estamos construindo uma articulação nacional para pensar o futuro da engenharia brasileira. O setor demanda novos perfis profissionais, e a universidade precisa estar conectada a essa transformação”, afirmou.
A pró-reitora de Pesquisa da Unicamp, professora Ana Frattini Fileti, moderadora do painel, reforçou essa percepção ao destacar um ponto central: os currículos tradicionais não acompanham a velocidade das transformações tecnológicas. Segundo ela, a experiência mostra que a universidade historicamente tem dificuldade para incorporar rapidamente tecnologias emergentes — como a Inteligência Artificial — aos currículos de engenharia, mesmo quando essas ferramentas já transformam a prática profissional. “Como podemos configurar os cursos de engenharia para abarcar o profissional que as empresas precisam? Quais são as competências técnicas e soft skills que devem fazer parte dessa formação?”, questionou.
Falta de profissionais qualificados
A executiva Isabel Waclawek, da TotalEnergies, trouxe números que ilustram a urgência do tema. A queda contínua nas matrículas em engenharia, somada à demanda crescente por competências digitais e tecnológicas, já compromete projetos estratégicos do setor de óleo e gás. “Temos no Brasil uma crise de profissionais qualificados. Sem engenheiros preparados para lidar com tecnologias de descarbonização, integridade de ativos e novos sistemas energéticos, não avançaremos”, afirmou.
Waclawek destacou ainda um paradoxo que a indústria acompanha com preocupação: as universidades formam cerca de 50 mil engenheiros por ano, mas a previsão é de que o país precise de 350 mil novos profissionais em breve. “O desafio não é apenas quantitativo. Falta gente com o repertório necessário para a transição energética”, acrescentou.
Hiato entre formação e prática
Representando a Petrobras, Luiz Claudio Moreira Paschoal ampliou o diagnóstico ao apontar que o problema começa antes da graduação. O ingresso de jovens em carreiras STEM diminuiu, ao mesmo tempo em que a evasão chega a 25% dos alunos — um quarto dos estudantes não conclui o curso. “Isso revela um desafio estrutural que impacta diretamente o futuro da indústria de energia. Temos menos gente entrando e parte significativa desistindo no caminho”, observou.
Para Paschoal, a solução depende de ecossistemas de inovação robustos, capazes de conectar formação, pesquisa aplicada e desafios reais. Ele citou iniciativas inspiradoras, tanto no Brasil quanto no exterior, que integram empresas, agências reguladoras e centros de pesquisa em modelos de pré-competitividade. “Um dos motivadores desses ecossistemas não é apenas gerar produtos, mas gerar competências. É isso que sustenta a inovação no longo prazo.”
Transição energética exige visão sistêmica
O professor Gilberto de Martino Jannuzzi, da Faculdade de Engenharia Mecânica da Unicamp e assessor da Diretoria Científica da FAPESP para o programa de transição energética, destacou que o país vive hoje uma transição muito mais complexa que a realizada nas décadas passadas. Antes, trocar queimadores de lenha por GLP exigia engenharia e logística. Agora, “transição energética” envolve equidade, impacto climático, desenvolvimento regional, políticas públicas e sistemas energéticos descentralizados.
“Não basta conhecer tecnologias duras. O novo profissional precisa entender para quem a solução é feita, qual é o impacto regional, como clima e território influenciam. É um engenheiro que precisa navegar entre sistemas técnicos, sociais e econômicos”, explicou.
Apesar dos desafios, o painel revelou um consenso: a aproximação entre universidade, centros de pesquisa e indústria já está redesenhando a formação de recursos humanos. Fileti citou iniciativas do CEPETRO, EPIC, CINE e ETRC como exemplos de ambientes onde estudantes vivenciam problemas reais e aplicam tecnologias emergentes, como visão computacional, IA e modelagem avançada.
Waclawek reforçou a importância dessa integração para que a pesquisa acadêmica se transforme em inovação industrial. “Precisamos criar trilhas de formação focadas em impacto real. Os projetos começam na universidade, mas precisam seguir para a indústria para serem escalados.”
Paschoal completou: “Quando criamos ambientes integrados entre universidade e indústria, não entregamos apenas soluções tecnológicas — formamos competências”.
Realizada de 3 a 5 de dezembro no Auditório da FCM/Unicamp, a Energy Week reuniu especialistas de empresas, academia e órgãos de fomento para debater os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro da energia. Promovido pelo CEPETRO, o evento integrou diferentes centros de pesquisa em energia da Unicamp, como EPIC, ETRC, CINE e CEMOBE.











