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Notícia

Os 7 erros que impedem startups de chegar à primeira nota fiscal: painel da Energy Week expõe falhas estruturais no ecossistema de inovação

Especialistas da Unicamp, IPT, Petrobras e setor privado discutem por que tantas tecnologias promissoras não chegam ao mercado — e o que precisa mudar na relação entre startups, universidades e grandes empresas.

O último painel da Energy Week — evento realizado entre 3 e 5 de dezembro pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Unicamp — trouxe um diagnóstico direto sobre o que está impedindo startups de alta tecnologia, especialmente deep techs ligadas ao setor de óleo, gás e energia, de transformarem pesquisa em negócio. 

Além de apresentarem suas iniciativas e programas, os debatedores expuseram os erros críticos, cometidos tanto por startups quanto por empresas, universidades e institutos de pesquisa — e que explicam por que tantas soluções tecnológicas não conseguem chegar à sua primeira nota fiscal.

O painel foi moderado pelo professor Rangel Artur, diretor-executivo associado da Agência de Inovação da Unicamp (Inova Unicamp), e reuniu João Carlos Sávio Cordeiro, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo (IPT); Hércules Padilha, gestor de inovação aberta, startups, pesquisa, desenvolvimento e inovação da Petrobras; e Orlando Ribeiro, CEO da Neo Okeanos Consultoria.

A seguir, os principais erros destacados pelos especialistas — e por que eles comprometem a vida de uma startup.

1. Levar desafios de P&D para startups — em vez de levar problemas de negócio

O alerta mais contundente veio da Petrobras. Segundo Hércules Padilha, há um equívoco grave na forma como grandes instituições e universidades procuram startups:

“A gente tem levado desafios de pesquisa para startups. E aí, não vai dar certo. O pipeline precisa colocar o desafio certo.”

Startups, afirmou, precisam resolver problemas que alguém está disposto a pagar para ver solucionados. Quando recebem apenas desafios acadêmicos ou tecnológicos, sem compromisso de contratação ou uso real, o resultado é previsível: a tecnologia não amadurece, a empresa não cresce e o mercado não aparece.

2. Focar apenas em tecnologia e ignorar o negócio

Padilha também destacou que o país ainda forma empreendedores extremamente competentes tecnicamente, mas pouco preparados para gerir um negócio:

“A gente precisa ter formação em empreendedorismo. A nossa tendência é falar só de tecnologia. Mas para ser um bom gestor, eu preciso estar constantemente me qualificando.”

Ele resumiu essa mudança de mentalidade em uma frase que virou símbolo do painel:

“Todos nós deveríamos abraçar o desafio de emitir notas fiscais.”

3. Falta de maturidade tecnológica e dificuldade de acessar infraestrutura

O representante do IPT, João Carlos Cordeiro, lembrou que muitas startups simplesmente não conseguem avançar porque não têm acesso às condições mínimas para validar suas tecnologias:

“Dificuldade de acesso ao capital, maturidade tecnológica, barreiras regulatórias, competição com players tradicionais, ciclo de desenvolvimento longo e custoso — especialmente no setor de energia —, acesso à infraestrutura de laboratórios, dificuldade de investimento em máquinas.”

Para ele, sem acesso a ambientes de teste e equipamentos, boa parte das startups morre antes de demonstrar valor ao mercado.

4. Não dominar finanças básicas: cash burn e runway

No setor de energia — intensivo em capital — administração financeira não é opcional. É um fator de sobrevivência. 

O consultor Orlando Ribeiro foi direto: “Duas palavras são matadoras: o famoso cash burn e o runway — quanto você gasta por mês e quanto tempo vai durar o seu caixa. E de onde vai vir o próximo dinheiro. São problemas absolutamente críticos.”

5. Deixar burocracias corporativas esmagarem startups

Ribeiro também trouxe ao debate um problema estrutural nas relações entre grandes empresas e startups: “O responsável não pode sair de férias e esquecer de autorizar o pagamento da startup. Em 30 dias essa empresa quebra.”

Para ilustrar, ele citou a metáfora clássica: “É como um elefante dançando com um ratinho. Olhou para o lado, pisou, acabou o ratinho.”

A mensagem foi clara: grandes empresas precisam adaptar seus processos internos quando lidam com startups. Do contrário, podem inviabilizar parceiros que deveriam impulsionar.

6. Dificuldade de realizar testes reais e alcançar TRL avançado

No setor de energia — intensivo em capital e dependente de validação em campo — a dificuldade de realizar testes reais é um dos gargalos mais críticos. Como lembrou o consultor Orlando Ribeiro, muitas empresas evitam interromper a rotina operacional para permitir testes, o que torna mais lento o avanço do TRL das novas tecnologias:

“Para conseguir chegar no nível adequado do TRL, você tem que testar numa condição real de utilização. É difícil as empresas interromperem a rotina operacional para permitir a realização desse teste.”

7. Pensar apenas no mercado brasileiro — quando a demanda real é global

Apesar da extensa lista de desafios, todos os especialistas reforçaram que o Brasil ocupa uma posição privilegiada na transição energética mundial, com grande potencial para exportar tecnologia de descarbonização.

Mas isso exige abandonar a mentalidade localista. Para Padilha: “Existe uma demanda global, existe capital disponível. Mas precisamos desenvolver a maneira como fazemos isso.”

As startups brasileiras precisam nascer olhando para o mundo.

Iniciativas relevantes, gargalos que ainda são nacionais

No painel, Rangel Artur destacou iniciativas da Inova e da incubadora de empresas da Unicamp que apoiam a formação empreendedora e o desenvolvimento de deep techs — um ecossistema que, só na incubadora, registra 77% de taxa de sucesso em seus últimos 20 anos. João Carlos Cordeiro, do IPT, trouxe a dimensão nacional desse movimento ao lembrar que, apenas em 2025, a instituição avaliou mais de 3.600 startups e atendeu diretamente 364 delas, em programas que envolveram 57 municípios.
Padilha detalhou como os programas de inovação aberta da Petrobras estruturam as etapas de desenvolvimento tecnológico — incluindo modalidades específicas para startups. Mesmo com iniciativas importantes nas instituições participantes, ressaltou-se que muitos dos gargalos têm dimensão nacional e demandam maior alinhamento entre universidades, empresas e governo.

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A Energy Week reuniu especialistas de empresas, da academia e de órgãos de fomento para discutir os principais desafios e oportunidades que moldam o futuro da energia. Promovido pelo CEPETRO, o evento integrou diferentes centros de pesquisa em energia da Unicamp — entre eles, EPIC, ETRC, CINE e CEMOBE — fortalecendo a articulação entre ciência, tecnologia e mercado. O painel dedicado ao tema, Empreendedorismo no setor de óleo e gás e transição energética, contribuiu para consolidar o debate sobre o papel das deep techs no avanço da inovação energética no Brasil.

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