Painel reforça que abandono precipitado do petróleo pode elevar custos, ampliar desigualdades e comprometer segurança energética.
O petróleo seguirá indispensável por décadas, e qualquer tentativa de substituí-lo sem planejamento esbarra em custos trilionários e riscos para a estabilidade energética.
Esse foi, em linhas gerais, o alerta do consultor Antônio Cláudio de França Correia na abertura do painel “O papel vital do Óleo e Gás na Matriz Energética Atual”, realizado nesta quarta-feira (3/12) durante a Energy Week, evento promovido pelo CEPETRO da Unicamp. Diante de uma plateia formada por pesquisadores e profissionais da indústria, o especialista enfatizou a complexidade da transição energética e a necessidade de decisões públicas baseadas em ciência, planejamento e realismo econômico.
O debate foi moderado pelo professor Denis José Schiozer, diretor do EPIC e coordenador do grupo de pesquisa UNISIM/CEPETRO, que destacou a relevância de discutir cenários energéticos em um momento em que a demanda global continua crescendo. Também participou do painel Marcos da Silva Andrade, da Universidade Petrobras, que analisou o papel das grandes petroleiras diante do desafio de produzir
energia com menor pegada de carbono.
Energia: demanda crescente, desafios crescentes
Em sua apresentação, Correia contextualizou o debate lembrando que a demanda energética global continuará subindo, impulsionada pelo crescimento populacional e pelas ambições de desenvolvimento humano. Segundo ele, as perspectivas internacionais mostram que, mesmo em cenários de neutralidade de carbono, óleo e gás ainda comporão parcela importante da matriz até 2050, ao lado da expansão de
renováveis como solar e eólica.
Para ilustrar o tamanho do desafio, o consultor comparou a potência total consumida pela humanidade — cerca de 21 terawatts — com a energia que chega à Terra via radiação solar. “Recebemos diariamente o equivalente a 10 milhões de Itaipus acesas. O problema não é falta de energia, mas nossa capacidade de captá-la, armazená-la e distribuí-la”, afirmou.
Correia também destacou que o setor de óleo e gás investe globalmente US$ 650 bilhões por ano apenas para manter a produção estável. “Se eliminarmos 8% do petróleo do sistema, será preciso investir quase US$ 3 trilhões anuais para suprir a mesma energia com fontes intermitentes. É preciso discutir a transição com base em física, economia e engenharia — não em slogans.”
Ao complementar a análise, Marcos da Silva Andrade ressaltou que as empresas petrolíferas já não operam apenas respondendo ao mercado, mas também às pressões da sociedade e às metas globais de redução de emissões. Segundo ele, o debate internacional tem sido marcado por um equívoco conceitual: “o que está colocado para o mundo não é a “desfossilização”, mas a descarbonização do petróleo” — ou seja, não se trata de eliminar o recurso imediatamente, mas de reduzir sua pegada de
carbono enquanto novas soluções ganham escala.
Para Andrade, tecnologias como CCUS (captura, uso e armazenamento de carbono) devem ganhar protagonismo, ao lado de combustíveis de menor impacto e iniciativas de eficiência. Ele lembrou que a indústria possui um amplo know-how em combustíveis líquidos e gasosos e deve utilizá-lo para acelerar soluções de baixo carbono.
“Você não decreta o fim das petroleiras. Precisa dar a elas caminhos técnicos, econômicos e tecnológicos para se transformarem em empresas de energia.”
