Novo laboratório passa a funcionar a partir de janeiro e vai permitir a realização de experimentos em larga escala para sanar problemas recorrentes na indústria de petróleo.
O Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) vai operar, a partir de janeiro do próximo ano, o novo laboratório experimental Prof. Fernando de Almeida França, apelidado de MultiFlow Lab. O laboratório possuirá experimentos a céu aberto para o estudo de parada e repartida, um problema recorrente da indústria petrolífera. Com 1500 m2 de área, o MultiFlow Lab está pronto e vai passar a receber equipamentos financiados pela empresa PETRONAS PETRÓLEO BRASIL.
A inauguração das instalações ocorreu ontem (18/10/23), em Campinas (SP), com as presenças de diversos executivos da empresa, entre eles o gerente de Exploração Américas, Nasaruddin Ahmad; o gerente geral de Ativos Internacionais, Muhammad Yusof Abdullah; e o gerente de Exploração do Brasil, Ali Andrea Bin Hashim, além do Petronas Country Manager Brazil, Omar Nizar B. Abdullah. Os executivos foram recebidos pelo diretor do CEPETRO, prof. Marcelo Souza de Castro, entre outros membros. O evento contou ainda com as presenças do pró-reitor de Extensão e Cultura da Unicamp, Prof. Dr. Fernando Coelho; e da representante da Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Unicamp (COCEN), Raluca Savu. Da parte da família do professor homenageado com o nome do laboratório, estiveram presentes sua esposa, Tamara Christo França, e seus filhos, Ivan Christo França e Theo Christo França acompanhados das respectivas esposas e filhos, além de amigos da família.
“Teremos uma linha de simulação de escoamentos multifásicos (bi e trifásicos) de três polegadas e 100 metros de comprimento e uma série de equipamentos. Isso tudo vai permitir aumentar a escala do que temos hoje em universidades no país para fazer simulações e testes que melhorem a produção de petróleo. Inicialmente o foco das nossas pesquisas estará em um problema comum na indústria petrolífera, que é a parada e repartida de poços, momento em que diversos problemas de garantia de escoamento podem ocorrer, e que tem muito ainda a ser aprimorado”, afirma o diretor do CEPETRO.
O professor explica que ao produzir petróleo dos reservatórios, por exemplo em campos offshore, além do óleo, são produzidos gás natural, água e areia. “Normalmente, utilizamos modelos matemáticos para prever a extração desses diferentes produtos, e esses modelos são desenvolvidos com dados de laboratórios como o que está em construção”, diz.
No entanto, quando a produção de um poço é interrompida por um período, as fases se segregam ao longo das longas linhas – ar na parte superior, óleo no meio e água na parte inferior. “Isso gera o que chamamos na indústria de problema de parada e repartida, pois quando se reinicia a produção essas diferentes fases podem se misturar, provocando problemas de produção, chamados de problemas de garantia de escoamento. Inclusive, em muitos casos, é necessário injetar agentes químicos para inibir essas misturas”, explica Castro.
Trata-se de um problema comum, mas que precisa ser melhor entendido e monitorado de acordo com as características e particularidades de cada poço de extração. “Muito já se avançou para inibir esse problema, mas ainda há muito para ser estudado e é o que vamos fazer no novo laboratório”, afirma. O grande diferencial do novo laboratório, de acordo com o diretor do CEPETRO, é propiciar que pesquisadores façam simulações em uma escala maior, permitindo que os modelos se aproximem mais da realidade. “Com os novos equipamentos teremos um laboratório a céu aberto onde será possível levantar muitos dados para fornecer modelos para os softwares que as empresas usam para prever problemas de produção”, explica.
De acordo com William Monte Verde, pesquisador do CEPETRO, o Multiflow Lab é mais um laboratório do grupo ALFA (Artificial Lift & Flow Assurance) do CEPETRO, e está estrategicamente localizado próximo a outros dois Laboratórios do grupo: LGE (Laboratório de Garantia de Escoamento e LabPetro (Laboratório Experimental de Petróleo).
A composição desse polo de laboratórios permite a integração entre eles, possibilitando o compartilhamento de infraestrutura, além de avançar no Technology Readiness Level (TRL) das pesquisas realizadas. O pesquisador afirma que os laboratórios são essenciais para a sinergia entre indústria e universidade. “Os estudos e serviços já realizados nesses laboratórios têm ajudado empresas a enfrentar desafios nos cenários complexos de produção em águas profundas e ultra profundas”, esclarece.
O pesquisador Natan Bulgarelli complementa: “A construção de um laboratório focado nas necessidades de desenvolvimento na área de garantia de escoamento, escoamento multifásico e elevação artificial, com maturidade tecnológica em níveis mais elevados, como TRL 4, 5 e 6, permitirá a aceleração do ciclo de inovação tecnológica no setor de óleo e gás nacional, com vistas para o pré-sal brasileiro”. A primeira montagem experimental vai contribuir para a geração de novas tecnologias para o setor de energia, mas outras instalações a céu aberto devem ser construídas nos próximos anos.
Rodolfo Perissinotto, pesquisador do CEPETRO, afirma que a primeira linha experimental vai ocupar apenas 20% da área disponível para experimentos. “No entanto, esperamos desenvolver no restante da área, outros projetos de alto impacto tecnológico que promovam a captura e a redução na emissão de carbono, aumentando a eficiência do processo de produção de petróleo. Essa é a nossa visão para o futuro próximo”, explica.
Escopo dos projetos – O projeto de Pesquisa & Desenvolvimento tem investimento PETRONAS, obtido com recursos da cláusula de PD&I da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Jonas Castro, Head of Concession Contracts Exploration da PETRONAS no Brasil, também presente na inauguração, afirma que a empresa está investindo na geração de conhecimento de questões que vão desde a exploração e produção de hidrocarbonetos, energias renováveis, incluindo produção de hidrogênio, e captura e uso de carbono. O foco das pesquisas tem sido, sobretudo, a eficiência energética e estudos ligados à transição energética.
“A PETRONAS tem buscado firmar parcerias de investimentos com universidades reconhecidas e com amplo histórico de investimentos em PD&I relacionados à produção de hidrocarbonetos, como é o caso da Unicamp e, em especial, o CEPETRO”, afirma Castro.
O executivo explica que o investimento em infraestrutura de pesquisa, como o que está sendo realizado junto ao CEPETRO, é visto pela empresa como parte fundamental para a capacitação de profissionais para a indústria e aprimoramento das pesquisas. Fora isso, há o interesse no desenvolvimento de novas tecnologias, aprimoramento de processos e produção de novos produtos para aumentar a eficiência da exploração e produção de petróleo e novas energias.
“Contribuir para a instalação do novo laboratório era a meta da PETRONAS para esse projeto. Caberá ao CEPETRO avaliar e buscar alternativas para manter o novo laboratório relevante para novos estudos”, diz Castro.
O diretor da CEPETRO, Marcelo Castro, conta que o laboratório vai iniciar as atividades focado em resolver questões relacionadas ao problema de parada e repartida. “Mas a ideia é investigar outras questões relacionadas a temas importantes para a indústria petrolífera como outros pontos relacionados a garantia de escoamento e até mesmo à captura de carbono, por exemplo. Temos outras empresas interessadas em construir novos aparatos experimentais para diferentes problemas da indústria”, finaliza.



